| A delimitação do espaço através de uma única cobertura |
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| Arquitetura - Casas | |||||
| Qui, 19 de Novembro de 2009 13:20 | |||||
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A delimitação do espaço através de uma única cobertura, e da projeção da sombra resultante, é a solução dada neste projeto do arquiteto Jomar de Mello, para esta casa de campo no município de Piraquara. A conexão que gerou com a natureza através da modo como ocupa o espaço foi parte imprescindível na estratégia de organização do programa.
A imagem da cobertura única ao longo da cultura arquitetônica do século XX foi significativa, manifestando-se em diferentes contextos, programas e escalas através de distintas soluções e materiais; foi marcada, de um lado, por um forte caráter simbólico impregnado no conceito de abrigo, e de outro, pelo necessário avanço técnico que a acompanhou na medida em que se aumentaram as dimensões dos projetos e a complexidade dos programas. Implantada numa chácara no município de Piraquara, os únicos elementos externos a esta cobertura seriam reflexos da particularidade da família: o deck frontal descoberto e massas de vegetação que responderiam à demanda de privacidade em uma proposta suburbana sem a delimitação no sentido tradicional, potenciando a presença de luz natural. Pretendeu-se que fosse a forma de atualização de um modus vivendi vigente de uma determinada família. “Foi necessário mudar a tipologia da casa. Tratava-se de modificar a divisão interna da casa desta família de classe média, que necessitava se atualizar em relação às modificações sociais que se processavam neste contexto”. Diz o arquiteto Jomar de Mello “Os clientes paulistas, aqui fizeram um deck e transformaram isso na casa “de campo” da família. A estrutura é quase autoportante, porque você colocava a viga de madeira pra cá e o telhado lá em cima e dá tudo certo. As coisas ficaram e tiveram que se submeter a uma divisão de espaço que nada tinha que ver com a menor aspiração comum, mas o resultado contribui para a vida familiar”. Afirma Jomar de Mello Todo o programa da casa foi contido sob uma única cobertura, neste caso retangular. Ganha relevância na organização do programa o papel central que assume a sala – ordenando os diferentes usos nela contida e ao seu redor, além de assumir um importante papel transitório entre a área social e a íntima – e o níveis interno que somados a diferenciação do piso interior matizam as múltiplas formas de continuidade com o exterior. A presença na obra de uma contundente relação entre estrutura, delimitação espacial e expressividade põem em evidência parecenças com a produção do arquiteto modernista Mies Van der Rohe. O arquiteto Jomar de Mello, sem a intenção de criar “uma teia de relações internacionais ou trans-temporais que comprove afiliações e influências” corrobora essa provável relação e ainda matiza a independência desta obra na forma como isso ocorre: “O que fica claro desde o primeiro momento neste projeto é que não estamos diante de transposições diretas de um procedimento projectual, o que se vê na minha obra são soluções com personalidade própria, fruto de transformações e adaptações relacionadas a uma cultura muito diferente da de décadas atrás. O que se vislumbra na obra é o desenvolvimento de uma série de temas essenciais que podem ser extraídos dos precedentes”. Salienta Jomar. À parte da certeza de que Jomar conhece e se interessasse pelo trabalho de Mies, chama-lhe especial atenção a Casa Farnsworth (1951), que revela a intenção de Mies por construir uma espacialidade diáfana e contínua, determinada por uma única cobertura sustentada através de uma estrutura vertical perimetral, posicionada fora dos fechamentos do edifício que, em seu conjunto de vigas e pilares, determina a imagem final do projeto. A exposição da estrutura e da lógica com a qual foi concebida por Mies desvelou, por trás da clareza e simplicidade alcançada, um rigoroso conhecimento técnico, evoluído e experimentado ao longo de suas obras. Essa descrição de parte da obra de Mies aproxima-se, ao menos de modo superficial, da estratégia inicial utilizada em grande parte neste projeto do arquiteto Jomar de Mello: a definição de um contingente de área por uma cobertura sob a qual o programa é articulado e onde a estrutura, sem a interferência de outros elementos, assume o caráter expressivo do projeto. Mesmo consciente de que no caso de Jomar por trás desta descrição simplificada ao máximo se escondam diferenças importantes entre as soluções dos projetos de Mies e o aqui apresentado. Se não queremos permanecer no âmbito de análises superficiais, será necessário assinalar ao menos duas questões que delimitam semelhanças e diferenças que matizam aspectos importantes entre ambas as obras. Espacialidades distintas resultantes de estratégias de projeto similares A eleição de materiais condizentes com a realidade técnica local, tanto no que diz respeito a questões orçamentárias como tecnológicas e construtivas. Ao se aceitar esta constatação – a diferença de material como uma forma de aproximação conceitual –, as diferentes soluções formais alcançadas são legitimadas por se tratarem de respostas associadas à técnica e ao material correspondente. Portanto, ao sobressaltarem-se os aspectos formais de cada componente estrutural, revelam-se estratégias similares. Contudo, é fundamental perceber que no interior destas casas essas semelhanças resultam espacialidades diferentes. Na casa Farnsworth, Mies enterra o máximo de peças do programa com a intenção de alcançar uma planta o mais diáfana possível, vedada apenas por vidros e com o mínimo de interrupções visuais e o máximo controle dos obstáculos físicos. Jomar, ao contrário, localiza todas as partes do programa na cota de acesso, preservando somente às áreas íntimas a privacidade necessária. A relação entre as áreas externas e internas A relação entre as áreas externas e internas prefiguradas pelo uso de coberturas únicas uma outra diferença importante. A permeabilidade entre interior/exterior na casa Farnsworth de Mies é controlada por um embasamento prévio, submetendo-a a uma limitação geométrica física, atribuindo a este projeto, o caráter de templo. Essa relação é mediada por uma plataforma, um embasamento criado onde o usuário deve, por meio de escadas, tomar consciência de que acede antes de ultrapassar a linha imaginária da cobertura e as paredes envidraçadas. Segundo Jomar: “as relações com os precedentes não acontecem pela utilização de modos completos de resolver um problema, mas de uma série de estruturas formais, elementos e soluções parciais subordinadas postos à serviço de uma nova intenção” . Portanto, a tentativa de vincular esta obra de Jomar com as de Mies não buscou ratificar influências nem aclarar os reflexos de um jogo de espelhos estabelecido a partir do deslocamento de personagens e suas obras; pretendeu apenas indicar o esforço de revigoramento do projeto moderno através da continuidade de uma de suas questões essenciais: em sua versão idealizada, a justaposição entre espaço público e privado; e que no caso da casa de campo em Piraquara do arquiteto Jomar de Mello, passou a ser contestada.
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