| Rochas e Luzes – o natural e a natureza civilizada, uma arquitetura contemporânea. |
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| Arquitetura - Casas | |||||
| Ter, 02 de Dezembro de 2008 20:12 | |||||
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Esta casa projetada e construída a partir de 2006 constitui singular prática projectual de arquitetura doméstica para o arquiteto e lighting designer Jomar de Mello, por causa da especial circunstância em que ela foi planejada e construída, tomando como suportes aspectos imprescindíveis do pensamento da arquitetura contemporânea, o natural e a natureza. Portanto, as leis da natureza como protagonistas nesta obra, proporcionam neste momento de extensão das fronteiras da modernidade a oportunidade para dar passagem à idéia de planta livre e ambientes abertos, ícones formais da arquitetura no Movimento Moderno que ecoam na arquitetura Contemporânea, mas
sem o lastro destes desgastados modelos tradicionais. A arquitetura contemporânea pode ser melhor que a Moderna demonstrando especial interesse pelos valores do natural e dos elementos da natureza. E foi a força do natural que permitiu relocar a rígida funcionalidade do espaço interior da sua condição de valor supremo. A natureza como um drama no tempo em constante movimento, absoltamente paralisada, aparece aqui como condição essencial. O cliente, empresário do mercado imobiliário, contratou o arquiteto para projetar uma casa para revenda num terreno de sua propriedade no bairro Jardim Social em Curitiba. Solicitou uma casa com boa vista e confortável, depois de uma série de pré-requisitos exigidos pelo mercado imobiliário para rápida venda. Qual foi a surpresa do cliente, quando na apresentação do projeto, a família decidiu mudar do seu apartamento no Batel que moravam há 25 anos para a nova casa. Foi paixão a primeira vista.
Fato comum, quando se projeta residências, os clientes ilustrarem seu gosto com referências de livros e revistas. Admirador da arquitetura do Movimento Moderno, em especial a arquitetura orgânica de Frank Lloyd Wright, o cliente já havia solicitado de antemão o uso de rochas como material de revestimento para complementar os volumes de alvenaria e concreto. A ilustração de referência em questão era a Casa Kaufmann (Fallingwate´s House - Casa da Cascata). O arquiteto viu aí um grande problema: a falta de sentido em "adaptar" um ícone da história da arquitetura para as condições absolutamente distintas das encontradas na referência: aspectos físicos, ambientais e temporais. O entorno constitui um meio urbano consolidado e a vitalidade da vizinhança junto ao dramatismo do silêncio foram aspectos que entreteceram com os serenos espaços de sua estrutura. Devido à natureza do terreno, o arquiteto, implantou a propriedade orientando sua frente para o sudeste, os quartos ficariam a nordeste, áreas sociais a sudoeste e assim os fundos da casa a noroeste. Desenvolveu as plantas em linhas horizontais e verticais, emulando as camadas de revestimentos de rochas e criando paredes deslocadas. As acentuadas linhas verticais e horizontais que as originam, constituem a característica mais distinta.
Como resposta ao singular pedido do cliente, projetou uma casa que parece seguir as mesmas leis formativas da natureza, mas uma natureza civilizada: o volume do conjunto parece um reflexo geometrizado da configuração do terreno onde se assenta - uma afirmação de artificialidade, de obra do homem - a pureza de sua geometria retilínea, sua cor branca se permite banhar pela energia do sol. Ao mesmo tempo a casa responde fielmente ao conceito de forma arquitetônica contemporânea: a confrontação entre o princípio tectônico (tipo estrutural-arquitetônico) e a confrontação volumétrico-objectual (imagem plástica) constituem seu fundamento de método compositivo, que se resume no princípio de integridade do programa construtivo-figurativo, um princípio essencialmente sintático através do qual a arquitetura se afirma como evento. Tal princípio é contrário a operações análogas a aquelas que existem atualmente, o pseudo-historicismo. A estrutura formal da obra procura mostrar a essência individual do tipo, transformando-se ao mesmo tempo em uma condição que não pode ser repetida em outro lugar se não naquele em que se assenta. Assim, por trás desta aparente submissão ao lugar - legislação, condicionantes físico-ambientais, programa de necessidades, insolação - o arquiteto, fez convergir a geometria, correspondendo a complexidade do rigor da forma à temporalidade da natureza metafísica de objeto arquitetônico.
O imóvel faz destacar na paisagem sua potente unidade, tanto tipológica como simbólica, apresentando-se como uma caixa fechada e segura, mas com permeabilidade controlada. O edifício geometricamente simples identifica-se com sua cobertura como uma plataforma descolada para entrada do sol. Ela lhe confere uma imagem heróica, de acesso para o triunfo, deixando de lado tudo o que for demasiadamente humano, para reencontrar sua essência atemporal. O tempo parece mover-se, tanto no interior da casa como no meio antrópico externo. As nuvens vistas pelas aberturas de vidro de dentro da casa, as sombras dos moradores vistas por quem esta fora dela. Espectros dinâmicos. A casa tem vida em seu interior e comunica isso ao meio. Apesar disso o uso de rochas nos revestimentos dá a sensação de uma caverna, a idéia primitiva de habitação - novamente a estratégia conceitual de dualidade, mas sem o sentido de confronto, simplesmente, opostos complementares.
Os mitos são os que constituem a base da reputação desta casa com o meio circundante, são também os mitos que vão determinar sua configuração como arquitetura, e o sentido de símbolos arquitetônicos cuja organização toma a forma de dois mundos contrapostos, identificados como o desejável e o não desejável, o visível e o invisível. Na fachada aparecem "duas portas" ou duas aberturas - uma moldura "de pedra" simbólica que conduz ao invisível, outra "de madeira" de fato funcional que conduz a grande sala. Através destas portas somos conduzidos em um movimento sem retorno que abrem o interior do imóvel para o mundo. Em síntese, as características dos elementos que definem a arquitetura da casa - a base, a cobertura, a entrada, as aberturas - que respondem sem exceção a essa vontade de afirmação de uma forma íntegra, sobre o espetáculo de uma arquitetura mítica, teatralizada pelas rochas e luzes. O edifício tem base, como pés - "os pés são o mais humano", disse o filósofo francês George Barthes. Mas, mesmo quando este embasamento se torna uma prova de sua "vontade heróica" e de sua aspiração ao atemporal e ao arquetípico, permanece esse outro componente - a base - que dá origem à forma geométrica do edifício. A cobertura coroa a casa, se identifica com ela, acessível e orientada, é um fundo para o livre jogo das forças da natureza e do movimento do sol. A entrada se encontra em um lugar certo, disfarçada entre as demais "aberturas", no entanto, o caminho conflui à ela. As aberturas, em posições estratégicas, mantêm a integridade voluntária ocultando seu conteúdo. Por dentro são simples molduras para a contemplação do espetáculo da dinâmica da natureza.
A presença de oposições, tais como, entre o racional/horizontal e o vertical /emocional e de um forte contraste entre os materiais - reboco liso e pedras irregulares - reafirma o desejo de explorar uma estratégia formal de dualidade, uma dramatização dos contrastes naturais. Da mesma maneira, ao dinamismo, ao movimento dos planos e linhas, se sobrepõem à imagem de impassividade entre o fluir constante do tempo e da suspensão equilibrada da vida cotidiana. O natural é aqui civilizado dentro das dimensões do artificial e absolutamente controlado pelo homem. O arquiteto acreditou no natural como protagonista nesta obra, utilizando rochas para montar uma paleta de materiais, fazendo com que ela se tornasse rica, rochas de variados tipos e tamanhos, cores e formas, texturas e acabamentos, são utilizadas de diferentes maneiras - harmônicas a coleção de arte dos clientes, novamente dualidade: natural e arte. Junto a esses materiais foram necessários painéis de vidros emoldurados em madeira para dar à estrutura um ritmo ao conjunto. Assim resultou muita luz natural a vários ângulos permitindo um meio ambiente equilibrado com as madeiras nobres da carpintaria e marcenaria. Para além de suas condições domésticas, não há dúvida de que se trata de um espetáculo solar uma arquitetura banhada pela luz, um traço desenhado com precisão, um conjunto de fissuras que deixa escapar o espaço interno.
A iluminação é o item que uniu de forma equânime os ambientes e o conjunto. É um meio irreal, mas tem uma enorme influência sobre a percepção dos espaços físicos e é responsável por respostas emocionais para quem entra, trabalha e usufrui a casa. O arquiteto que é especialista em iluminação, garantiu no projeto soluções com forte senso de eficiência, estética e funcionalidade, solidária e harmoniosa com a arquitetura, enfatizando também o menor custo. A intenção do projeto luminotécnico foi criar um ambiente adequado para o ser humano que vai usufruí-lo, oferecendo conforto e qualidade de vida, através da integração eficiente de fontes elétricas e artificiais (não elétricas), visando atender de forma equânime as necessidades dos clientes e usuários, levando em conta design, forma, função, normas técnicas, consumo de energia, operacionalidade e manutenção. E a fonte natural planejada para a minimização das cargas térmicas e de radiação ultravioleta, objetivando o máximo aproveitamento das qualidades da luz natural que reduz o consumo direto e indireto de energia. O projeto luminotécnico (elétrico, artificial e natural) além de eficiente, confortável e belo, agrega valor de revenda ao imóvel. O arquiteto Jomar de Mello nunca esqueceu as intenções iniciais do cliente. Como exemplo de arquitetura doméstica, esta casa no Jardim Social, é singular, por parecer renunciar a dar uma resposta direta a suas condicionantes e a expressar, como costuma ser habitual, seus caracteres através da conversão das formas dos elementos componentes - coberturas, fechamentos e molduras - em símbolos da própria domesticidade do edifício. Só um dos condicionantes específicos do doméstico, o de seu pequeno tamanho, encontra direta satisfação nas estratégias formais utilizadas em cada uma delas: como forma (ou volume) rígida e unitária. Ao escolher esta forma externa, o que resulta é uma amplificação do edifício doméstico imprescindível para apropriar-se do meio circundante: esta se produz por extensão, irradiando sua influência tal como é próprio da forma monumental. A geometria, essencial no desenvolvimento do edifício, ilustra tendência arquitetônica: a integridade formal de suas absolutas referências ortogonais. Este efeito tem especial importância se considerar a influência que esta casa recebeu da arquitetura contemporânea - racionalista - e se é vista como reflexo das tendências italianas em direção à depuração geométrica.
Do que foi dito a casa é um espetáculo lúmnico, com uma imagem de ascensão e triunfo; se apropriando do meio por extensão e rica de interioridade numa caixa. Enfim, ela supõe um congelamento no tempo reconhecendo nesta obra o poder libertador da natureza e do natural, que exigiu do arquiteto colocar-se frente a ela sem a carga das convenções ou dos estilismos. Sustentando a potência de sua imagem contemporânea numa nova concepção de espaço interior. Objeto singular, nascido fora das correntes dominantes da arquitetura atual de mercado - os minimalismos, os pseudos classicismos, errôneos e caducos historicismos - esta casa, figura no século XXI, se coloca em meio à presença da beleza do natural para tomar sua força. O espelhismo de uma volta à natureza, como meio para liberar a arquitetura contemporânea de seus enganos formais tem nesta um momento de realidade em que a própria arquitetura ressoa com especial intensidade no eco produzido pelo meio. Entretanto neste encontro, a arquitetura permanece desenhando-se com autonomia não só com respeito ao meio ambiente e antrópico, mas, também com respeito às imagens históricas associadas com os antigos mitos e suas condições naturais.
Aparte, do que solicitou o cliente, assim como Frank Lloyd Wright, o arquiteto Jomar de Mello não contrapõe natureza e civilização, nem identifica esta com o urbano; para ele a especulação racional, própria da natureza é de um valor superior, que se identifica com a experimentação própria da cidade. Como conseqüência, o mito da natureza não é um mito idealista, mas sim um mito que tem a ver com as organizações que chamamos realistas, enquanto tem mais relação com a experiência humana e a representação que com a idealista da forma. Deste modo há uma reconsideração a arquitetura do Movimento Moderno, sem recuperar sua idéia de ordem compositiva ou seus critérios mais estritamente racionais aplicados na configuração da edificação. A arquitetura Contemporânea do arquiteto e lighting designer Jomar de Mello não é historicista ou formalmente retrospectiva, mas opera com a complexidade, a totalidade, a citação e a ironia. E deste modo, Jomar coloca novamente em cena a arquitetura de Wright, mas ao mesmo tempo em que a convoca, a contesta.
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